terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Tambor de Crioula 2


Fundamentação Teórica do Tambor de Crioula


            O Tambor de Crioula, ou simplesmente Punga, é uma dança típica do Maranhão, geralmente de caráter profano, mas por vezes com conotações religiosas, podendo ser considerada uma brincadeira. Realizada em qualquer época do ano, a Punga é mantida pelos descendentes de escravos africanos. É também manifestação cultural afro-descendente de pagamento de promessas a São Benedito e outras entidades igualmente comuns no estado. Associado à manifestações culturais e tradição, o Tambor de Crioula em São Luis remete à noção de cultura para Santos (1994, p. 45), que afirmará a cultura enquanto construção histórica, ou seja, permeada pela tradição:

“Cultura é uma construção histórica, seja como concepção, seja como dimensão do processo social. Ou seja, a cultura não é algo natural, não é uma decorrência de leis físicas ou biológicas. Ao contrário, a cultura é um produto coletivo da vida humana. Isso se aplica não apenas à percepção da cultura, mas também à sua relevância, à importância que passa a ter.” (SANTOS, 1994)

            Grupos de tambor costumeiramente se apresentam no período do Carnaval e em outras datas festivas, como o São João ou em apresentações turísticas. Segundo os próprios brincantes, as apresentações em palcos e arraiais pela capital é cada vez mais estimulada pelo governo. Esse estímulo se mostra na forma de auxilio financeiro para os grupos filiados à Associação e cadastrados junto às Secretarias de Cultura do Estado (SECMA) e do Município (FUNC-MA). O Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho mantém uma lista com vários grupos cadastrados e que se apresentam regularmente. Ferretti[1] (1995) fala a respeito do Tambor:

“Mulheres cantam e dançam dando entre si ou com pessoas da assistência. A umbigada ou punga é uma espécie de convite a dança, os homens tocam tambores e entoam cânticos conhecidos ou de improviso.” (FERRETTI, 1995)

            Ao pensarmos no caráter geralmente festivo dessa dança, logo percebemos a primeira diferença entre o Tambor de Crioula e o Tambor de Mina, Mundicarmo Ferretti trabalha com o conceito de Mina de modo a tornar mais clara essa distinção, a saber:

“O Tambor de Mina ou simplesmente a “Mina”, é uma manifestação de matriz africana surgiu no Maranhão em meados do século XIX. Seu marco inicial foi a fundação pelas mãos de africanas da Casa das Minas (Jejê), consagrada ao vodun “Zomadonu” [...] e da Casa de Nagô consagrada ao orixá “Xangô”, ambas ainda em funcionamento.” (FERRETTI, M., 1985)

            Assim podemos tomar por base o caráter religioso versus profano de ambos os Tambores para distingui-los. Enquanto a Mina é uma manifestação religiosa de caráter ritualístico em que a presença do transe é marcante e há sempre um ritual a ser seguido para cada tipo específico de entidade, a Punga é predominantemente profana, e seus cânticos e toadas servem principalmente para diversão dos brincantes. Mas Ferretti (1995) afirma:

“O tambor de crioula é manifestação festiva não se caracterizando pela ocorrência do transe, mas na cultura popular onde uma manifestação nunca é totalmente profana, as fronteiras entre sagrado e profano são estreitas, existem muitas vinculações do tambor de crioula com catolicismo popular e com as religiões de origem africana como tambor de mina e a umbanda.” (FERRETTI, 1995)

            O Tambor de Crioula[2] é praticado por inúmeros terreiros ao longo de todo o ano, sobretudo em homenagem a São Benedito ou aos Pretos Velhos, no dia 13 de maio. Ao ser praticado em um terreiro ou casa, o Tambor ganha outras conotações, uma vez que as apresentações no Carnaval e São João são realizadas geralmente para o público em geral, mas principalmente para turistas, fazendo com que a prática de Tambor seja quase “comercial”. Já em terreiros, temos os brincantes à vontade, com liberdade para entoar cânticos às diversas entidades do Candomblé e da Umbanda.
            Normalmente é comum encontrar grupos de tambor filiados a alguma casa ou terreiro, tendo o pai ou mãe-de-santo como fundador. No que diz respeito à performance, tem-se que o Tambor é dançado apenas por mulheres em formação de roda, conta também com um grupo de percussão formado por três tambores, desempenhando cada qual uma função bem específica: o pequeno repica, o médio, também dito meião ou socador, mantém o ritmo enquanto o grande ou roncador marca o momento da umbigada. Alusiva à fertilidade, a umbigada ocorre quando duas dançarinas se encontram por um alegre choque de ventres e representa um convite para que a protagonista seguinte ocupe o centro da roda com seu solo de giros, evoluções e gracejos. Como de costume, os tambores são escavados a fogo e têm os seus couros aquecidos e afinados diante de uma fogueira. Sua composição não impõe um limite de brincantes, e qualquer pessoa pode se sentir livre para “entrar na roda” e participar da apresentação. Praticado em quase toda sua totalidade por negros, o tambor parece estar conquistando seu espaço junto a outras camadas da população. Ferretti (1995) descreve esse recente fenômeno:

“Atualmente estudantes e brancos da classe média começam a participar a participar ativamente, dançando ou tocando tambor de crioula. Trata-se, entretanto de manifestação de origem africana típica dos negros do Maranhão.” (Ferretti, 1995)

            Isso parece reforçar a difusão cada vez maior do Tambor na sociedade. Porém, vale ressaltar que o interesse de outras camadas sociais pela Punga é relacionado ao incentivo governamental. Com o apoio financeiro das Secretarias de Cultura do Estado e Município, os grupos têm se apresentado em arraiais, durante as festas juninas, e palcos no período de carnaval, popularizando o acesso à dança. Mas, frisa-se o interesse mercadológico do Estado por trás da popularização da Punga. Ao tornar o Tambor um produto cultural, o Estado torna este também universal, pois graças à mídia, na pós- modernidade, nada é tão local quanto mundial. Nesse sentido, a cultura maranhense e a promoção do Tambor de Crioula tornam-se frutos de jogos de poderes, que lhes determinam essas identidades.
            Em meio à produção das cantigas e toadas do Tambor de Crioula, objeto de estudo deste trabalho, vale ressaltar primeiramente o conceito de língua de especialidade, que serve de base para identificar a vertente lingüística que norteia este trabalho. Uma vez codificada a variação lingüística que ocorre na escrita das toadas, torna-se mais simples a transcrição do falar popular contido nas cantigas. Conceição (2009) define:

“O conceito denominado por língua de especialidade tem sido definido como um conjunto limitado de características de uma determinada língua natural. Características particulares a determinados contextos comunicativos e constitutivas de padrões de interação comunicativa específicos (comunicação especializada) que não se podem limitar às unidades lexicais atualizadas nos discursos técnicos e/ou científicos, isto é, os termos, ainda que estes sejam considerados o elemento do sistema linguístico que melhor caracteriza as línguas de especialidade.” (CONCEIÇÃO, 2009)

            Assim, ao tomarmos as lexias das cantigas e toadas do Tambor de Crioula enquanto especialidades de uma língua maior, que é a portuguesa, podemos aferir o caráter de interação comunicacional por trás da produção. Normalmente, as cantigas são dotadas de um forte caráter pragmático, voltadas para eventos do dia-a-dia do brincante e têm como fonte de inspiração diversas situações do cotidiano dos participantes: a vida na periferia, o passado vivido no interior do estado, conselhos ou reprimendas de uma entidade espiritual, fatos que ocorreram na vida do participante ou mesmo a pobreza, entre outros. Porém, vale lembrar também algo bastante frequente entre os compositores de toadas, que é a criação de cantigas de improviso. Criadas no momento da apresentação, essas toadas podem se perpetuar ou serem esquecidas, pois geralmente não há uma preocupação dos próprios participantes em documentar tais cantigas. As cantigas que se pretende analisar serão retiradas do acervo em cd e texto “O Calor do Tambor de Crioula do Maranhão dá o tom à Cultura Popular”, em que três mestres têm suas cantigas gravadas e documentadas: Mestre Chico, Mestre Leonardo e Mestre Felipe.



                 Material colhido do documentário em VHS: “Religião e Cultura Popular: Festas da cultura popular na religião afro-brasileira do Maranhão” de autoria de Sérgio Ferretti (1995).


      Tais observações foram realizadas pelo pesquisador em visitas a terreiros em um período anterior ao da realização deste trabalho.

Essa é uma outra etapa da pesquisa do Thiago Victor.

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